sábado, 21 de fevereiro de 2009

Capítulo IV (Parte II)

Divagava com o olhar por todas as sombras do espaço, como se detrás de uma coluna ou escondidos numa esquina, pudesse haver uns olhos que o espiassem. Sentia com toda a força a tensão que se instalara no palácio real e, ainda que tivesse tratado de eliminar todas as provas que o podiam indiciar, não deixava de notar que a rainha lhe dirigia demasiada atenção. Fora um alívio para si ver que Durun morrera com os seus segredos, mas isso não significava que estivesse salvo. E que razões poderiam explicar a obsessão de Alessandra pela sua pessoa, mandando-o chamar a qualquer hora, com a escusa de supervisionar as investigações no respeitante à morte do seu marido e ao desaparecimento do seu filho?
Inconscientemente, Lothian apressou o passo. Parecia que os corredores do palácio se haviam alongado interminavelmente e que horas haviam já decorrido desde que deixara os seus aposentos em direcção à torre dos mensageiros. Escondido entre as vestes, levava a derradeira prova da sua cumplicidade na conspiração e tudo o que desejava era livrar-se dela o mais rápido possível. A partir daí, que Amara decidisse o que queria fazer. Sabia, contudo, que caso fosse encontrado com aquele documento em sua posse, seria desmascarado e, sem dúvida alguma, submetido ao mesmo hediondo destino que Durun.
- Boas noites, conselheiro. – cumprimentou uma voz atrás de si, levando a que o seu corpo se retesasse de pavor. Ao voltar-se para fitar o rosto do seu interlocutor, contudo, o seu nervosismo transformou-se numa máscara de arrogância, ao ver que se tratava de um simples soldado, um de entre os muitos que patrulhavam o palácio.
- Boas noites, soldado. – respondeu – Precisas de algo?
- Não, senhor. – replicou o soldado – Pretendia apenas certificar-me de que era o conselheiro e não um estranho.
- Fizeste bem. – observou Lothian – Nesse caso, prosseguirei o meu caminho.
O soldado assentiu e, cumprimentando-o com um rígido gesto militar, seguiu com a sua ronda.
Poucos passos depois, contudo, ao alcançar, enfim, a escadaria da torre, a gélida máscara do conselheiro quebrava-se sob o temor que ocultava e um leve suspiro saiu dos seus lábios, expressão do alívio que subitamente o invadira.
- Ainda vais ser a minha morte, - murmurou – Amara Morningstar.

Quando o corvo chegou ao seu destino, Amara fitava as estrelas, buscando no manto dos céus a serenidade que não conseguia encontrar no seu coração. Mirian não conseguira ver com exactidão o que ocorrera em Lithian. Era demasiado jovem para controlar o seu poder de forma eficiente. Dissera-lhe, contudo, mais que o suficiente para que os seus pensamentos explodissem numa tempestade de nervosismo. Haviam falhado. Quantos teriam morrido, pois? Quantos voltariam para si? E Soran? Estaria ele…?
O som do crocitar do mensageiro, momentos antes de pousar no seu ombro, despertou-a das suas divagações. Lentamente, estendeu a mão para a ave, removendo-lhe da pata o pequeno embrulho que escondia a mensagem. Depois, enquanto o corvo voltava aos céus de onde viera, Amara fixou o seu olhar na letra do conselheiro Lothian e lágrimas de dor e de alívio inundaram os seus olhos.
Sabia agora o essencial do que sucedera, ainda que muito tivesse ficado por explicar, e ainda que o derradeiro resultado tivesse sido uma derrota, as consequências não haviam sido tão graves como as que a sua mente imaginara. Segundo a informação que tinha diante de si, Amon Raven, fora morto por uma flecha desconhecida, e não por um dos seus, mas, ainda assim, morrera. O caos que se instalara, contudo, impedira que os seus agentes cumprissem com a sua missão. Sabia que Durun fora capturado e torturado até à morte, mas que nada dissera, e, ainda que sentisse alguma suspeita quanto à sua pessoa, Lothian mantinha o seu posto na corte. De Avalen e Delenia, nada sabia, excepto que vira esta última, pela última vez, perigosamente próxima do príncipe Adhemar, que também desaparecera sem deixar rasto. Quanto a Soran Fadenbran, vira-o desaparecer entre a multidão na companhia de Caledon Westraven que, desde esse momento, não voltara a ser vislumbrado.
Um leve sorriso ganhou vida nos lábios de Amara. O rei estava morto e Adhemar e Caledon desaparecidos. Dos seus, apenas um morrera, e, ainda que lamentasse genuinamente essa morte, era, sem dúvida, um resultado um pouco melhor que o que esperara após a visão de Mirian. Delenia e Avalen… Seguramente voltariam para Varin, caso estivessem bem, e Soran… Não deixaria de voltar para os seus braços. Previa até que o lorde tivesse sido o único a cumprir a sua missão com sucesso. Talvez em breve tivesse o seu odiado irmão à sua mercê. Mas uma pergunta continuava a perturbar o seu pensamento. O que teria acontecido a Adhemar?

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Capitulo IV - Parte I

- Mamã…mamã… - uma petiz de aparentes quatro anos suplicava para que a sua mãe a resgatasse das mãos do cruel homem que a levava. A mulher não mostrava um pingo de comoção, a sua expressão facial era fria e inalterável. Aquele momento era a solução perfeita.
- Mamã…não quero ir…Mamã…- repetia a criança.
- Está aí o saco de moedas de ouro como o combinado. – disse o homem – Por ela – apontou para a criança – e pelo esquecimento deste dia. É o melhor para todos. É, sem dúvida, o melhor para ti.
A expressão de gelo da mulher foi interrompida por um breve sorriso.
- Não… Não cometas esse erro. Não me ameaces. Que julgas tu possuir? Quem tens para te proteger? És um simples peão. Um insignificante peão. – a mulher pegou um monte de areia e soprou – Vês? Livrar-me de ti seria tão simples como isto.
- Até as filhas do demónio têm os seus pontos fracos. Aparece para atrapalhar a minha vida e verás do que sou capaz!
- O negócio está fechado. Não costumo desfazer tratos.
O homem seguiu o seu caminho com a criança enquanto a mulher ficou estática, indiferente aos constantes gritos da criança. Assim que os dois desapareceram do alcance da sua visão agarrou com força o saco de moedas e sorriu.
A sua alegria, contudo, foi interrompida pela escuridão que subitamente invadiu o céu. O dia fez-se noite e um corvo pousou no seu ombro direito, esticou-se e, com o seu bico, roubou o saco e deitou-o ao chão. A mulher ajoelhou-se para recuperar o saco, mas parou incrédula ao deparar-se com ossos que substituíam, agora, as moedas de ouro. Ao longe avistou uma sombra. Foram precisos longos minutos para finalmente reconhecer quem se encaminhava lentamente na sua direcção. A sua filha….a criança de quatro anos…caminhava ensanguentada, os seus olhos vidrados, as suas mãos esticadas como procurando ajuda em desespero.
- Mamã…mamã... – repetia cada vez mais próxima - Ajuda-me que vou morrer…
A mulher levantou-se e deu dois passos para a frente ficando mesmo ao lado da filha, sem soltar uma lágrima. Queria somente descobrir o que tinha acontecido.
- Mamã… - a criança ajoelhou-se perante a mulher – Só tu me podes ajudar.
A petiz cuspiu sangue e caiu inerte aos pés da mãe.
Ofélia acordou. O seu corpo estava quente. Confusa, olhou em redor, tentando entender aquele sonho e o porquê de surgir agora.

- Está a anoitecer! – exclamou o príncipe, preocupado – Temos de arranjar um lugar para ficar.
- Mais uma hora e chegamos ao nosso destino. – respondeu Delenia – Não vou pernoitar por tão pouco.
- Daqui a meia hora vai ficar tão escuro que nem os nossos corpos reconheceremos. É melhor passarmos aqui a noite. Em segurança.
- E passaremos em segurança. No nosso destino. Para que quer passar aqui a noite, príncipe? Eu não sou nenhuma mulherzinha da cidade fácil de enganar e com um fascínio inexplicável pela sua presença.
O príncipe sorriu. “Que mulher teimosa”.

- Onde vai, princesa? – questionou Rómulo.
- Aproveitar a noite para resolver um problema pendente – respondeu Elara – Uma espinha encravada.
- Não percebo. Acha que a sua ausência não será notada? Bem sei que a morte de seu pai não lhe cobra lágrimas mas fingir era um mínimo precioso.
- Neste momento a minha mãe continua ocupada com as suas grotescas torturas e o meu irmão está desaparecido. O funeral de meu pai será amanhã e estarei cá bem a tempo. Vou aproveitar a noite para ir à caverna de Luath.
- Matar a bruxa? – perguntou Rómulo sorrindo – E não quer a minha companhia? Seria a cereja em cima do bolo.
- Não, ainda não.
- Então? Que negócios tem com ela?
- A bruxa sabia o que ia acontecer. Quero saber porque ela não me alertou para intrusos. Quero saber quem levou o meu irmão.
- Está a pensar salvá-lo?
- Pelo contrário. Quero garantir que morre. – respondeu Elara – Além disso, quero saber que intenções têm esses intrusos e se me poderão atrapalhar no meu assalto ao trono.
- Não percebo o porquê de continuar a poupar a vida a essa inútil…
- Eu não preciso de ti para pensar – a princesa montou no seu cavalo – Limita-te a fazer o que eu mando se ainda sonhas com algo mais do que és. Se alguém questionar a minha ausência, tenta inventar uma desculpa credível.
- Como desejar, princesa.
Elara seguiu em direcção à caverna.

As parcas luzes provocadas por fogueiras irrompiam a escuridão, Delenia sorriu.
- Chegamos . – disse falando mais para ela própria do que para o príncipe.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Capítulo III (Parte VI)

Nenhum outro sítio em todo o reino de Lithian fora, em toda a sua história, designado com o nome de um dos seus habitantes. Homem algum fora considerado digno de tal graça e, como tal, não havia em todo o espaço um único ser que se pudesse orgulhar de ter sequer o mais ínfimo território abrigado sob a sua designação. Nenhum excepto Doren Azthar.
Praticamente desde o início da dinastia Raven que os filhos proscritos de Azthar, desertor do reino vizinho, haviam vivido na sombra da família reinante. Eram suas as mãos que mexiam no trabalho mais imundo e que, sem hesitar, cumpriam com os destinos que nenhum outro homem conseguiria determinar sem medo de voltar a ser visto perante a luz do dia.
Fora, pois, esse o nome que para sempre se gravara a sangue nas mais negras memórias de Lithian e, por isso, o mais negro e imundo lugar do reino, aquele onde o medo e a agonia reinavam sobre tudo o mais, tomara para si o nome daqueles que seriam, até ao fim da tirania Raven, os carrascos dos soberanos.
Dizia-se que o ambiente da câmara de Azthar era capaz de gelar os nervos do mais corajoso dos homens e que, se a penumbra tenebrosa da câmara, aliada aos estranhos instrumentos do carrasco, era já a visão de um inferno iminente, era contudo a crueldade espelhada no olhar de Doren o primeiro de todos os suplícios.
Naquele dia, um sádico sorriso parecia pairar nos lábios do carrasco que, segurando nas mãos uma fina lâmina, parecia esperar, pacientemente, a sua vítima. Contrariamente a outros que, em tempos, haviam exercido a sua função, um descendente de Azthar jamais ocultaria o rosto e, como tal, a sua face pálida e esquelética parecia ser, perante os condenados, como um prelúdio à contemplação da morte.
E então Alessandra entrou, um lampejo de cumplicidade brilhando no seu olhar. Por algum motivo fora a rainha a protectora daquele homem odiado. Havia, na verdade, uma secreta razão que levava a tímida e submissa rainha a acompanhar com tanto empenho os interrogatórios da justiça real, fitando serenamente o seu secreto protegido enquanto o seu corpo reagia aos gritos dos supliciados. Atrás de si, dois dos guardas arrastavam o corpo da sua nova vítima, já despojado das suas vestes, e pronto a sofrer em nome do prazer e da verdade. Por último, como se encerrasse uma espécie de cortejo fúnebre, também a perturbada figura do conselheiro Lothian entrou na sala.
Silenciosamente, Doren sorriu, enquanto observava a sua sádica rainha tomar o seu lugar no modesto trono, no centro de uma das paredes da câmara. Como a uma deusa sinistra, viu-a ordenar aos guardas que lhe apresentassem o seu prisioneiro, enquanto, com um leve aceno, indicava a Lothian que se aproximasse.
- Compreenderá, certamente, – disse ela – porque vos trouxe comigo, conselheiro Lothian. É, evidentemente, o seu dever assistir-me na busca do responsável pela morte do meu marido.
- Evidentemente, majestade. – concordou o conselheiro, ocultando sob o gesto de uma breve referência, o verdadeiro pavor que lhe consumia os sentidos. O que faria se o prisioneiro soubesse da sua intervenção na conjura? Que poderia fazer caso o homem pronunciasse o seu nome?
- Azthar. – prosseguiu a rainha, dirigindo-se ao carrasco – Trago-te um assassino. É possível que o negue com todas as suas forças, mas eu sei que é culpado. Espero que mo proves.
Doren respondeu com uma vénia.
- Muito bem. – concluiu Alessandra – Podes começar.

Parecia que, finalmente, a confusão de Vareil ia ficar para trás e, à medida que Fadenbran o conduzia por entre as ruas mais decrépitas, que eram também as mais desertas da capital, Caledon começava a acreditar que conseguiriam escapar em segurança ao caos provocado pelo assassínio do rei.
Quando, contudo, a penumbra começava a invadir os céus e a floresta circundante começava já a ser visível, a sua caminhada foi bruscamente interrompida por uma visão invulgar. Diante dos seus olhos perturbados, três carruagens pareciam ser cuidadosamente posicionadas, ainda com os seus animais atrelados, de modo a estarem prontas a partir, mas, ainda assim, obstruindo por completo o caminho em frente. Não parecia, ainda assim, haver ninguém por perto.
- Recue, Westraven… - murmurou Fadenbran, em tom de urgência – Tenho um mau pressentimento sobre isto…
Atemorizado, Caledon preparava-se para obedecer quando, subitamente, o ar foi invadido pelos ruídos de um numeroso grupo de homens que, saindo das sombras atrás de si, começaram a avançar na sua direcção.
- O que é isto, Fadenbran? – perguntou, forçando a voz a não vacilar.
- Não faço a menor ideia… - respondeu este, reflectindo também o medo na sua expressão – Tente fugir. – sugeriu – Vou tentar mantê-los ocupados.
Antes que Caledon tivesse oportunidade de responder, já o lorde se lançava em direcção às carruagens, como se planeasse fugir. Contrariamente, contudo, ao que parecia ser o seu plano, apenas dois dos seus atacantes investiram na sua direcção, lançando-se os restantes em direcção a Westraven, que, paralisado pelo medo, mal se debateu antes de ser completamente imobilizado.
Por um momento, ainda tentou vislumbrar o que se passava, mas sem sucesso, pois, escassos segundos depois, um grosso capuz negro era enfiado pela sua cabeça, tapando-lhe a visão, ao mesmo tempo que outras mãos o agarravam e amarravam. Antes, contudo, de se sentir arrastado para longe e descuidadamente lançado para o interior do que calculou ser uma das carruagens, não pôde deixar de ouvir a voz de Fadenbran, modificada num grito que lhe gelou o sangue:
- Não!

Várias horas haviam decorrido, mas, na câmara de Azthar, nenhum dos presentes estava mais próximo da verdade que anteriormente.
Era verdade, de facto, que Durun tentara mostrar-se um cobarde perante a rainha, na esperança de conquistar para si próprio o direito de uma morte rápida, ao invés do sofrimento. Sabia-se capaz de resistir a muito, mas não podia ter a certeza de controlar os seus segredos perante um limite demasiado extenso de dor e, por isso, tentara encontrar na cobardia o refúgio da única fuga que lhe seria permitida.
Perante a dor, contudo, a sua alma revelara-se mais forte do que ele próprio alguma vez a julgara. Diante dos olhos de Alessandra que, inconscientemente, reflectia em cada sorriso e em cada gesto, o mais profundo desejo da crueldade absoluta, Doren Azthar brincara com o seu corpo através dos mais temíveis e dolorosos instrumentos, mas os lábios da sua vítima não se haviam separado senão para dar passagem aos gritos.
E, agora, enquanto via os olhos do prisioneiro, desesperado, suplicante, mas inflexível no seu silêncio enquanto fitava alternadamente o sádico sorriso da rainha e a tensa expressão do conselheiro, Alessandra estava, finalmente, satisfeita. Tinha um culpado para dar a si própria e as suas ânsias não lhe pediam mais dor. Para que precisava de continuar a insistir nas provas?
- Ele não falará. – declarou, levantando-se bruscamente, enquanto, de forma discreta, trocava com o carrasco um leve olhar de aprovação – Termina com o seu sofrimento. Conselheiro… - acrescentou – Ficará para se certificar da execução, presumo…
Lothian assentiu, sentindo a tensão do seu corpo abrandar enquanto a figura da soberana se afastava do trono, para, em seguida, abandonar a câmara. Então, o seu olhar desviou-se para o corpo mutilado e ensanguentado de Durun, a tempo de encontrar nos seus olhos a acusação do fracasso, a mesma imagem que, para sempre ficaria aprisionada na sua memória, imobilizada no estertor da morte que, pela mão do carrasco, descia sobre o peito do condenado.

Durante alguns momentos, os gritos de Caledon continuaram a ouvir-se, apesar de abafados pelo tecido, enquanto, no interior da carruagem, alguns dos seus captores tratavam de o imobilizar devidamente, para depois o silenciar com uma mordaça.
Alguns instantes depois, contudo, enquanto o silêncio se estabelecia, os dois homens saíram da carruagem, aproximando-se com reverência da figura que, tendo retomado a sua máscara de serenidade, os fitava tranquilamente, de braços cruzados sobre o veludo das suas vestes negras.
- Cumprimos a nossa parte, Lorde Fadenbran. – declarou um deles – Para onde devemos seguir?
- Para a terra dos exilados, Johan. – respondeu Soran, com um sorriso leve, enquanto os seus olhos se fixavam na carruagem – Aí, onde a lua de Varin brilha com a magia dos puros, a senhora dos condenados receberá o nosso tributo e aceitará a nossa fidelidade.
- Muito bem, senhor. – assentiu o homem – Que seja para Varin.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Capitulo III (Parte V)

Rómulo tinha a noção de que os arqueiros não tinham fuga possível. Os soldados que o seguiam cercariam as torres e, assim que os assassinos do rei fossem apanhados tudo estaria perdido. Abriam a boca em troca da liberdade e o plano estava arruinado. Porém, com a ajuda de Serpeus, um soldado com mais amor pelas moedas de ouro do que pelo reino, tinha elaborado um plano. Em ambas as torres havia deixado algumas tochas para com elas atear fogo a ambas as torres. Rómulo trataria da torre do seu lado direito enquanto o seu aliado estava encarregue da outra.
Ambos pediram aos soldados para esperarem e entraram nas torres. De imediato atearam o fogo, impedindo a saída dos arqueiros. Em seguida, saíram apressadamente, anunciando em falsos gritos de horror que as torres estavam a arder. Nenhum dos arqueiros, que rapidamente desciam as escadas para tentar a fuga, sabendo que se fossem apanhados pela rainha seriam entregues aos leões, conseguiu evitar uma expressão de terror ao encontrar as chamas. Logo naquele local gritaram por ajuda. Rómulo, Serpeus e seus homens ouviram perfeitamente os gritos desesperados.
- O fogo é um castigo brando para o vosso crime! – exclamou Rómulo.
- Ardei no inferno que criaste! – apoiou Serpeus.
Os arqueiros voltaram a subir as escadas e de cima das torres suplicaram por ajuda.
A rainha dirigiu para as torres um olhar de desprezo.
- Os santos protegeram-vos, malditos. Pudesse eu as colocar minhas mãos em vocês... Deixasse-me Deus vingar a sangue frio a morte do meu rei.
A atenção de todos desviou-se das torres, Elara, acompanhada de quatro soldados e de um desconhecido, aproximavam-se da rainha.
- Minha mãe, minha rainha, olvide aqueles dois, pois são apenas carneiros. Apresento perante si o mentor de todo este trágico estratagema.
Durun sentia-se confuso com tudo aquilo. Ele, mentor? Ele, culpado daquele atentado? Sim, ele tinha um plano, todos os seus amigos tinham, mas esse plano tinha falhado. Alguém interviera, alguém que não tinha nada a ver com o plano de Amara.
- Quem és tu, miserável? Porque trouxeste a morte a um dia de festa? – questionou a rainha, aproximando-se de Durun.
- Sou Durun, filho dos vales e bosques. Venho sozinho e, ao contrário do que a princesa afirma, não tenho nada a ver com a morte do rei.
- Além da morte do meu marido ainda te dás ao desplante de contradizeres a minha filha? Como te atreves? Quem pensas que és? – interrogou Alessandra em cólera.
Elara aproximou-se de Rómulo, deixando a rainha e os soldados com Durun.
- Idiota! Tu disseste que eles não falhariam! O meu irmão fugiu! – murmurou Elara, zangada.
- Deixe que aqueles idiotas morram queimados. O príncipe fugiu,mas ainda há esperança. Ainda há algo a fazer. Enviaremos soldados à sua procura… Soldados para o eliminar. – segredou Rómulo.
- Espero que sim, para tua saúde. – ameaçou Elara - Considera este como o teu primeiro e único perdão, meu querido Rómulo. Caso não consigas os teus intentos, poderás ter a certeza disto… Tu morrerás!
Entretanto Durun tremia perante a Rainha. Por mais que jurasse que nada tinha a ver com o que tinha acontecido Alessandra não acreditava.
- Soldados, - ordenou esta - levem-no para a Câmara de Azthar. A sua dor não lhe permitirá mentir por muito mais tempo.
O cenário de festa estava agora destruído. O corpo do rei havia sido retirado pelos soldados, as torres haviam sido incendiadas e os arqueiros queimados. Ísis encontrava-se abraçada ao pai chorando pelo desaparecimento de Adhemar.

Nesse mesmo instante na floresta, Delenia e Adhemar corriam como loucos até que o príncipe parou, esgotado.
- Pára… - pediu, tentando recuperar o fôlego - Onde vamos? Penso que já corri muito trilho com alguém que desconheço.
Delenia sorriu.
- Alguém que te salvou. – respondeu - Não achas que é o suficiente para confiares em mim?
- Diz-me o teu nome.
- O que interessa? Não será o meu nome que te salvará a vida mas sim as nossas pernas. Não sabes o que aconteceu, temos de continuar.
- Encontraremos um abrigo para descansarmos. – sugeriu o príncipe.
- Está bem – disse Delenia, impaciente – Mas vês aqui algum abrigo? Ou queres abrigar-te numa toca de esquilo?
Sem palavras para a contradizer, o príncipe não disse mais nada, continuando a caminhar.
Delenia parou por alguns segundos, esperando que Adhemar se aproximasse. O seu rosto estava agora profundamente sério.
“Porquê?”, pensava. “Porque é que te salvei? Espero que Amara saiba o que fazer.”

sábado, 24 de janeiro de 2009

Capítulo III (Parte IV)

A confusão instalou-se entre os convidados, como um fogo devorador sobre os campos ressequidos. O medo cantava aos corações uma sinfonia de morte e de terror e, movidos pela compulsão que lhes gritava que sobrevivessem, muitos dos convidados afastavam-se do local, uns correndo pelas suas vidas, outros tentando disfarçar a apreensão numa retirada aparentemente serena.
Havia entre eles, contudo, mais que um homem com razões para temer pela sua vida e, de todos eles, era Lothian o que se encontrava mais próximo da suspeita, parado junto ao trono de onde o rei deveria dar início às celebrações com um breve gole do cálice envenenado.
Que mãos haviam enviado aquelas flechas contra o rei? Seriam aliados ou inimigos? Poderia correr o risco de permanecer sereno ante uma ameaça desconhecida? Lentamente, velando para que os apressados presentes que se cruzavam com ele não notassem que se dirigia ao trono, o conselheiro aproximou-se, pouco a pouco, da pequena mesa onde repousava o majestoso cálice. Olhou em volta, assegurando-se que ninguém vigiava os seus actos. Depois, discretamente, empurrou com o pé a pequena mesa, levando a que esta tombasse, derrubando o conteúdo do cálice.

Entretanto, no recinto dos nobres, outros olhos seguiam, apreensivos, o desenrolar dos acontecimentos. Sabia que, de todos os lordes de Lithian, sempre fora o favorito do monarca. Na verdade, conquistara esse lugar à custa de todos os meios que encontrara ao seu alcance. E agora Amon estava morto, assassinado diante dos olhos da elite do seu povo, pelas mãos de inimigos invisíveis à sua visão. Quem seriam os responsáveis por aquele atentado? Estaria também a sua vida em risco?
- Lorde Westraven. – chamou uma voz atrás de si, sobressaltando-o.
- Sim? – respondeu, agitado, enquanto se voltava, para encontrar, fixo em si, o rosto preocupado de outro dos senhores do reino, Soran Fadenbran. Evidentemente, também ele comparecera à cerimónia, e fizera-o nos seus mais ricos trajes, ostentando uma luxuosa capa de veludo escarlate que parecia iluminar a obscuridade das vestes que completavam a sua indumentária. Também ele parecia fitar o local onde o rei tombara, como se procurasse algo, mas, contrariamente a todos os que o rodeavam, não parecia agitado nem assustado com a situação.
- Não devíamos ficar aqui. – declarou Soran, na sua voz suave – Não sabemos quem está por trás deste… deste crime… Poderão ser também nossos inimigos. Principalmente, sabendo da sua relação de proximidade a Amon.
Caledon estremeceu.
- Tem alguma ideia de como sair daqui? – perguntou – Se o rei foi atingido perante todos os seus guardas, não creio que exista um único lugar seguro em Vareil. Vá, se precisa de partir! Eu fico aqui.
- Por amor de Deus, Westraven! – exclamou o lorde, preocupado – Acha que expor o seu corpo à morte lhe confere algum benefício? Eu posso salvá-lo, homem!
- Pode? – replicou Caledon, surpreendido – Como…?
Soran suspirou, desviando, enfim, o olhar da confusão que se avultava em redor do monarca assassinado. Não poderia continuar a fitar o espaço sem que suscitasse desconfianças. Ainda assim, perguntava-se o que teria acontecido com Delenia, e porque razão desaparecera da vista de todos o corpo ou a vida do príncipe herdeiro.
- Sabe que tenho muitos inimigos. – explicou, tentando parecer conciliador – Isto não deve ser segredo para si, uma vez que também os tem. Acontece que, contrariamente e a si, e não veja isto como um insulto, eu nunca tive ao meu dispor a protecção das forças reais. Foi por isso que criei o meu caminho de fuga, para que, se um dia, se revelasse necessário, pudesse garantir a minha segurança. Não posso morrer enquanto não tiver um herdeiro a quem deixar o meu nome. – acrescentou, pensativo.
» Fujamos de Vareil, Westraven. – insistiu - Tenho um casebre escondido nos arredores, onde armazenei meios suficientes para que possamos partir para um lugar seguro. Qualquer lugar que escolhamos…
Caledon hesitou.
- Confie em mim. – insistiu Soran – Salve a sua vida. Não lhe pedirei nada em troca. Mas, se vem comigo, então temos de o fazer já! – acrescentou.
Relutante, Caledon assentiu, lançando um último olhar ao espaço em seu redor.
- Vamos. – disse – Não creio que seja de qualquer utilidade ficar aqui.

Não tivera qualquer hipótese de se aproximar da rainha, cercada por um grupo de soldados que, prontamente, haviam acorrido, ao ver o corpo do rei tombar por terra, para proteger a família soberana. Devastada, Alessandra chorava sobre o cadáver do marido, como se o seu mundo tivesse desabado naquele exacto momento, ainda que os seus olhos parecem emanar mais cólera que dor.
Na fúria da sua perda, a rainha exigia que os responsáveis fossem trazidos à sua presença, uma vez que os queria ver mortos, pelo que, incapaz de cumprir com a sua missão, Avalen achou mais seguro afastar-se, ainda que, oculto sobre o disfarce de um dos acólitos, poucos pudessem suspeitar da sua verdadeira missão.
De qualquer forma, porque deveria ficar e arriscar a vida na hipótese de ser descoberto, se era já mais que evidente que não conseguiria alcançar o seu alvo? Discretamente, afastou-se da confusão, retirando-se lentamente do espaço, buscando entre passos uma forma de sair de Vareil. Um breve suspiro escapou-lhe, então, dos lábios. Como reagiria a senhora Morningstar ao seu fracasso?

Era como uma estátua de pedra a jovem princesa que, silenciosa e serena, fitava o cadáver do seu pai. Ligeiramente afastada da rainha chorosa e dos soldados que a defendiam, Elara parecia ser um alvo surpreendentemente fácil para o homem que fora encarregue de a neutralizar. Na verdade, apenas quatro homens a acompanhavam, e, pelo luxo ostensivo das suas vestes, pareciam pertencer aos convidados da família real e não aos defensores do reino.
Provavelmente seria notado, pensou Durun, enquanto, passo a passo, se aproximava, mas não antes de cumprir com a sua missão. Escondido entre os soldados e trajado com o mesmo uniforme de todos eles, ninguém suspeitaria dos seus objectivos até que fosse demasiado tarde.
Não contava, contudo, com a previdência da princesa que, responsável pela morte do rei, não deixara de prever a possibilidade de um ataque à sua pessoa, quer fosse porque suspeitassem da sua intervenção, quer porque alguém a tivesse traído. Foi, por isso, com espanto que, quando se aproximou do corpo de Elara, Durun se viu rapidamente agarrado pelas mãos dos quatro homens que a rodeavam e que, rapidamente eliminaram a sua resistência através da violência dos seus golpes.

Entretanto, na sua pequena casa em Varin, a senhora daquela conspiração perdida fitava atentamente os olhos da criança vidente. Naquele momento, toda a sua juventude se desvanecera no poder da profecia e Mirian tinha no rosto a profundidade dos abismos. Demasiado jovem para ter no corpo a força de um adulto, tinha na alma todos os séculos do mundo.
- Consegues vê-los, Mirian? – perguntou Amara, suavemente – Podes dizer-me alguma coisa?
O verde-claro dos olhos que tudo viam fitou-se no rosto da inquiridora, severo e entristecido por demasiadas visões. Na verdade, nada se desvanecia perante a sua omnipresente visão, mas, no caos de todas as divisões e confusões que haviam tomado posse da malfadada cerimónia, a vidente não podia encontrar mais que uma certeza, um murmúrio de totalidade em todos os fragmentos que observava.
- Falharam, Amara.- disse - Falhámos.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Capitulo III (Parte III)

Os passos compassados e molestos eram somente um pequeno indício do estado nervoso em que se encontrava Elara. Tinha sido demasiado tempo perdido, nada podia dar errado. E era tanta responsabilidade que recaía sobre dois homens inúteis… Deveria ser ela a disparar as flechas….mas era desmedidamente ousado.
Nervosamente, fechou os seus punhos. Se Rómulo falhasse, não descansaria enquanto não observasse a cabeça do guerreiro rolar até aos seus pés. Aproximou-se da janela do seu quarto e olhou para o pátio onde os escravos tratavam de alguns preparativos. Elara soltou um sorriso tremido, pegou em uma pequena agulha que estava na mesa do lado direito da janela e crivou-a no seu dedo mindinho da mão esquerda,
- Meu pai, hoje provar-te-ei, a ti e a toda a gente, de que fibra é feito o sangue que corre nas minhas veias! Eu e só eu serei a rainha!

- Mas…Mas onde está ela? – perguntava a rainha, desesperada. – Onde se meteu aquela incapaz? Que não lhe passe pela cabeça abandonar o meu filho! Não hoje! Não depois de tudo!
- Tenha calma, minha rainha. Provavelmente foi ter com alguém. – sugeriu a conselheira.
- Sim, vamos ao jardim. Espero que ela esteja por lá. Para o bem dela! Que não volte a pisar o solo deste reino se me fizer tal desfeita, porque a sua cabeça será distribuída pelos leões!
A rainha e a conselheira real saíram em passo apressado em direcção ao jardim Amedrontados pela sua expressão furiosa, os soldados e os escravos afastavam-se apressadamente de Alessandra.
O jardim real assemelhava-se a um labirinto e a procura por Ísis seria bastante exaustiva caso fossem apenas as duas mulheres.
- Minha rainha, não vale a pena cansar-se. Convoque alguns soldados para vasculharem o jardim.
- Eu não quero que isto se espalhe. Seremos só nós duas…E teremos que acelerar o passo.
- De acordo, minha rainha.
As duas seguiram caminhos diferentes tentando encontrar Ísis o mais rapidamente possível.
“E ela não estiver cá? Coitada da rainha…tanto esforço, tanto empenho e agora aconteceu isto...algo que ninguém poderia adivinhar.”, pensou Dyniana.

Entretanto, o rei acompanhava o seu filho cumprimentando todas as famílias presentes. Adhemar divertia-se com a falsidade de seu pai, a sua capacidade de falar com as gentes que lhe apenas desejavam o escalpe, que seriam os primeiros a cavar a sepultura da família Raven. Mas o reino era propício a estas situações. as uniões entre as pessoas tinham o seu momento E a amizade era uma palavra utópica. Até mesmo o príncipe já estava bastante evoluído na sua aprendizagem de relações interpessoais. Não foi, por isso, surpresa para o rei o à vontade do príncipe a falar com Rhemos, seu inimigo de infância.
Se é verdade que já tinham passado anos desde o seu último encontro, o olhar dos dois não mentia. O ódio mantinha-se lá, não tinha morrido. A sorte de Adhemar em ser filho do rei causava a inveja de Rhemos, e a facilidade com que o príncipe pôde igualar a educação dos outros foi a machadada sinal. Adhemar, como qualquer filho de rei, tinha a sua própria educação e, assim, logo desde os três anos começou a ser educado, assim continuando até aos quinze anos. Aí, o jovem fartou-se das paredes do castelo e solicitou aos pais que pudesse ter uma educação igual à dos outros, e assim foi colocado na Escola de Hallyarth, para onde iam todos os filhos de nobres. Entre eles encontrou Rhemos, filho do falecido Guiliärt, um dos mais bravos guerreiros do reino e de Yudimassa, uma das mulheres mais belas de Lithian, viúva cobiçada pelos mais valorosos soldados, mas sem que nenhum deles tivesse sucesso. Até Gälart tinha falhado as suas tentativas.
As quezílias entre Adhemar e Rhemos duraram por todo o período escolar. Qualquer rapariga que fosse alvo do desejo do príncipe era, desde esse momento, também um objectivo de Rhemos, mesmo que este não suportasse a presença da rapariga. Os professores, receosos, sempre deram as melhores notas a Adhemar perante a irritação de Rhemos. O príncipe não se importava em ser beneficiado, mais tempo lhe sobrava para andar na boa vida com o seu primo. Os constantes sorrisos de troça de Adhemar tiravam Rhemos do sério e em uma noite encontraram-se sozinhos em um canto escuro da cidade.
- Pois é hoje que acertaremos as contas, Rhemos. – afirmou o príncipe.
- Admira-me que não tragas as tuas mascotes de estimação atrás de ti. Surpreende-me, é certo. – observou o inimigo.
- Não preciso dos meus soldados para tratar de ti. És demasiado insignificante. – sorriu Adhemar.
- Isso veremos! – exclamou Rhemos atirando-se a ele, tentando acertar-lhe com o punho.
Adhemar desviou-se e deu uma joelhada no estômago de Rhemos.
O filho de Guiliärt soltou sangue pela boca, ajoelhou-se no chão com as mãos sobre a zona atingida.
- Já acabou? É tudo o que tinhas para dar? – perguntou Adhemar, soltando uma gargalhada.
O olhar de Rhemos endureceu ao ollhar para o príncipe.
- Não, meu príncipe! Não acabou!
Levantou-se, meio cambaleante e, olhando para o chão, começou a rir-se.
- Qual é a graça? – questionou Adhemar irritado.
Rhemos tirou uma adaga do seu cinto.
- Não sairás daqui vivo…meu príncipe.
O adversário do príncipe correu com a adaga apontando ao coração do inimigo, porém a sua velocidade não foi suficiente para surpreender o adversário. Adhemar saiu da frente de Rhemos e pregou-lhe uma rasteira, a adaga foi de imediato recolhida pelo príncipe que colocou-a na garganta de Rhemos.
- Cobarde! Devia matar-te agora mesmo! – exclamou Adhemar.
- Pois que esperas? Tanto eu como tu sabíamos ao que vínhamos. Hoje só um sairá vivo!
- Não vai ser necessariamente assim. – afirmou o príncipe sorrindo.
- Mata-me!
- Não! Hoje é o dia em que te deixo viver! Hoje é o dia em que tu ficarás em dívida comigo…para sempre! E saberes isso…é pior castigo que a morte. – disse Adhemar, levantando-se e atirando a adaga para longe.
Rhemos não se levantou. As lágrimas escorriam pelo seu rosto. A humilhação tinha sido total. Olhou para o lado e numa garrafa partida viu o seu reflexo. Procurou uma pedra no chão e atirou contra a garrafa, partindo-a. Era demasiado vergonhoso olhar para si próprio… Depois, sabendo que o príncipe ainda o podia ouvir gritou o mais alto possível.
- Vais pagar por isto, príncipe! Um dia irás pagar! Um dia será feita vingança!
Aquela noite foi totalmente recordada nos poucos segundos em que se cumprimentaram.

Quando o desespero já invadia o rosto da rainha, a voz de Ísis surgiu no horizonte.
- Minha rainha. – chamou a noiva que apareceu nas suas costas acompanhada da conselheira real.
- Aqui está ela. Estava sentada à beira do lago do jardim. – disse Dyniana.
- Minha filha, que te deu para desapareceres assim? Ias-me matando de preocupação! – exclamou a rainha.
- Perdoe-me minha rainha, apenas precisei de um tempo sozinha. Hoje é um passo enorme para mim. Por favor, perceba-me.
A rainha agitou as suas mãos acelerada.
- Não há tempo para perceber ou não perceber! A hora do casamento aproxima-se! Temos que nos despachar.

Finalmente chegou a hora do casamento. A noiva acabou por chegar um pouco atrasada, mas nada de muito estranho e até habitual nos casamentos.
Na primeira fila, era impossível a Elara disfarçar o seu nervosismo, mas a situação em que estava era um bom álibi. Afinal, porque não estaria impaciente com o casamento de um irmão? O rei e a rainha sentaram-se em tronos improvisados ao lado do altar exterior. Alvos muito fáceis, pensava Elara. Na fila de trás estava Rómulo, que, aproveitando um momento de maior confusão, segredou ao ouvido da princesa que os arqueiros estavam em posição.
A cerimónia ia decorrendo normalmente. Gälart, também na primeira fila, não conseguia evitar uns sorrisos de vez em quando. Nunca imaginara o primo naquela situação e só tentava imaginar o que sairia dali. Quando o padre perguntou se Adhemar tinha a certeza de que queria aceitar Ísis como sua esposa, Gälart ainda paralisou por alguns segundos. Será que o príncipe faria a desfeita aos seus pais?
- Sim. - respondeu o príncipe, descansando todos os presentes.
Quando todos pensavam que o casamento estariaa terminado assim que Adhemar e Ísis selassem a cerimónia com um beijo, duas setas sobrevoaram os presentes, uma delas atingindo o rei, e provocando o caos no recinto, impedindo os presentes de ver que a outra flecha não atingira o príncipe, pois este desaparecera…

sábado, 13 de dezembro de 2008

Capítulo III (Parte II)

Havia algo de negro nos olhos de Soran Fadenbran, enquanto caminhava por entre a multidão agitada, expectante relativamente ao casamento em vias de acontecer. Noutras circunstâncias, a sua figura teria tido no povo um impacto poderoso, levando a que se afastassem para permitir a passagem do seu nobre e imponente vulto. Naquele dia, contudo, o traje de um dos mais importantes lordes do reino não se marcava pelos luxuosos veludos da sua casa, mas sim pelos tecidos vulgares que, ainda que lhe servissem de disfarce, enquanto caminhava pelo meio da populaça, não lhe atenuavam o brilho da beleza que em breve voltaria a ser revelada.
Com um olhar penetrante, Soran percorreu a multidão, em busca dos seus aliados. Precisava de saber que tudo estava preparado, que a sua conspiração não falharia por um erro estúpido. Só depois retomaria as marcas da sua posição social e ocuparia o sue lugar na bancada dos lordes, imediatamente atrás daquele que, além de seu inimigo, seria também o seu alvo.
- Não devia andar por aqui sozinho. – sussurrou, subitamente, uma voz ao seu ouvido, levando a que o lorde se sobressaltasse. Ainda assim, este controlou as suas emoções e, calma e ponderadamente, continuou a caminhar, apercebendo-se então de que a figura que lhe falava se colocava a seu lado.
- Delenia… - murmurou Soran, reconhecendo-a – Andava à tua procura. Tudo está preparado?
A mulher respondeu-lhe com um sorriso perturbador.
- Evidentemente. – disse – Durun e Avalen foram destacados para a guarda das damas reais. Infelizmente, foi necessário que os soldados originais fossem substituídos, uma vez que sofreram um acidente.
Soran acenou, solene.
- Um acidente mortal? – inquiriu.
- Por quem me toma, senhor? – inquiriu Delenia, fingindo-se chocada – Doloroso, talvez. Não creio que se possam aproximar das celebrações nas próximas horas, mas, se isso o preocupa tanto, saiba que estão vivos e que, quando recuperados, não ficarão com sequelas…
- Não troces de mim, mulher! – exclamou o lorde, mantendo a voz num tom baixo, mas nitidamente ameaçador – Os meus pensamentos acerca dos métodos que usas não são para aqui chamados. E tu? Como vais alcançar o jovem príncipe?
Delenia sorriu.
- Eu? – perguntou – Não creio que venha a ter grandes dificuldades com isso. Imagine que uma mulher com a minha beleza se aproxima dos soldados e pede para servir o senhor na cerimónia. Julga que serei recusada?
- Assegura-te de que não o és. – ordenou Soran, peremptório.
O sorriso desapareceu dos lábios da mulher.
- Tudo está pronto. – disse ela – Cumpra com a sua parte que nós cumpriremos com a nossa. E, se bem me recordo, o vosso lugar é junto de lorde Caledon.
Soran assentiu.
- O meu lugar espera-me e não me fugirá, Delenia. Vai, e toma o teu posto, que eu tomarei o meu. Não creio que este… casamento… tarde muito mais em começar.

Sozinho no silêncio da câmara sacerdotal, também Lothian cumpria com a que seria a sua missão. A taça da celebração estava já pronta e o melhor vinho de Lithian enchia o ouro do vaso que tocaria, antes de qualquer outros lábios, os reais lábios de Amon Raven. Faltava apenas um último toque, o rubro fulgor que arrancaria ao arrogante rei o derradeiro sopro da sua vida, deixando apenas a sombra de um corpo inerte e o caos espalhado sobre as ruínas do seu reinado.
Lentamente, o conselheiro percorreu com o olhar todos os recantos da câmara, assegurando-se de que se encontrava sozinho. A mais pequena falha significaria o fracasso e a morte e esse era um risco que ele não estava disposto a correr. Depois, vendo que nenhum dos padres e monges que auxiliariam à cerimónia voltara para trás, aproximou-se, cuidadosamente, da taça da celebração, com a qual, depois de cumpridos os rituais, o senhor de Lithian abençoaria a união do casal.
O pequeno frasco surgiu, como se do nada, na sua mão trémula. Depois daquele passo, não haveria retorno. Era a sua vida que apostava naquele gesto e, por momentos, perguntou-se seria aquela a escolha certa. Quando a hesitação surgia, contudo, havia também uma voz que lhe recordava tudo aquilo que perdera e, mais uma vez, as suas apreensões silenciavam-se sob o peso do desejo de vingança e, naquele momento, foi isso mesmo que aconteceu.
Meticulosamente, Lothian retirou a tampa do frasco e, inclinando-o um pouco, derramou sobre o rubro vinho o líquido mortal. Nesse momento, um breve sorriso escapou dos seus lábios, afogando-se depois sob a austera máscara da sua serenidade habitual. Em seguida, como se prestasse os seus respeitos ao deus que, do altar, presenciara o seu acto, fez uma leve vénia, e afastou-se em direcção ao exterior.

 

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