quinta-feira, 12 de março de 2009

Capítulo IV (Parte IV)

Quando pararam, as fogueiras de Varin eram já visíveis algures na distância. Não seria, contudo, perante a obscuridade da noite que Soran Fadenbran se apresentaria diante dos olhos da sua senhora, segurando nas mãos a vingança que ela tanto desejava. Não… Seria o dia a assistir ao seu triunfo pessoal, para que ele pudesse ver, como na estrela da manhã, o brilho e o fogo que podiam arder nos olhos de Amara Morningstar.
Antes, contudo, tinha ainda uma outra espécie de vingança que concretizar. Criara uma ilusão em torno do seu prisioneiro, uma imagem que, certamente, o teria atormentado ao longo de toda a viagem. Agora, era momento de lhe revelar a verdade, para instalar no seu coração uma negrura ainda maior, capaz de lhe inspirar o mais profundo temor, e de o preparar devidamente para o que o esperava nas mãos da sua esquecida irmã.
Os débeis gemidos de um homem que se debatia, ainda que em vão, rasgaram o silêncio, levando a que um sorriso aflorasse aos lábios do lorde. Depois, lentamente, puxou o capuz para cima, ocultando o rosto, e esperou que os seus companheiros chegassem.

Ao encontrar-se diante da sinistra figura, Caledon tremeu. Não conseguia detectar o rosto por baixo do capuz, mas a sua severa imponência, claramente reveladora de um líder incontestável, indicava-lhe que aquela era a mente por detrás do seu rapto e que o seu destino poderia muito bem encontrar o seu fim no rumorejante ambiente daquela clareira. Um turbilhão de perguntas agitavam os seus pensamentos, ávidos de uma resposta que lhe permitisse sobreviver, mas a aparente tranquilidade do seu captor silenciava-lhe as palavras com o sopro de um pavor que o petrificava.
- Conheces-me, Caledon Westraven? – perguntou a voz que, por debaixo do capuz, lhe parecia estranhamente familiar, mas que, distorcida pelo medo, lhe parecia incompreensível.
A pergunta pareceu dar-lhe coragem para libertar a voz.
- Eu… - balbuciou – Não… Não sei quem é. O que quer de mim?
A voz riu.
- Tudo o que quero de ti, já o tenho. A tua miserável vida nas minhas mãos.
Lentamente, o vulto deixou que o capuz caísse, revelando o seu rosto. Nesse momento, um gemido de horror escapou dos lábios do prisioneiro, ao reconhecer a face do homem que julgara morto, ao compreender o significado do que lhe sucedia.
- Fadenbran! – exclamou, incapaz de raciocinar – Porquê? Que utilidade… Para que me quer? O rei está morto, e eu… Eu não sou ninguém!
- Que me importa o reino, Westraven? – interrompeu Soran – O que eu quero és tu. Não percebes? Não te lembras do que me fizeste? Quero vingança, criatura indigna! E, finalmente, tê-la-ei.
Nesse momento, Caledon compreendeu o ódio do outro lorde, um rancor nunca proferido, mas que crescera ao longo do tempo, desde o dia em que, quando a sua família planeava um casamento entre a sua irmã e Soran Fadenbran, ele decidira intervir, alegando que o noivo não estava à altura dos familiares mais próximos da dinastia reinante.
- É por causa dela? – perguntou, chocado – Porquê? Porquê agora? Tanto tempo depois de ela ter sido exilada… Calana estará certamente morta… Condenará a sua reputação, a sua posição em nome do ódio?
Soran riu.
- Como és ridículo… - observou, com um esgar de desprezo – Tentas argumentar comigo, quando o que queres fazer é implorar pela misericórdia… Mesmo nesta situação, continuas a ser uma besta arrogante.
Caledon abriu a boca, mas não conseguiu falar. Não, quando via que uma palavra errada podia custar-lhe a vida.
- Sim, é por ela. – prosseguiu Soran – E, contudo, a verdade não se aproxima sequer daquilo que imaginas. Mas não serei eu a revelar-ta. Ainda não…
O prisioneiro estremeceu.
- Suponho que é altura de te devolver ao teu cubículo. – declarou Soran – Aprecia a tua última noite. É possível que, amanhã, já não tenhas uma vida para apreciar.

1 comentário:

Leto of the Crows disse...

Gostei, como sempre, mas já me sinto meia perdida com os nomes das personagens xD

 

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